O idealismo distópico pandêmico

O idealismo distópico pandêmico

Coluna do Paulo Niccoli Ramirez
Coluna do Paulo Niccoli Ramirez

Parte 1

Na passagem da segunda para a terceira década do século XXI a humanidade foi atingida por uma grave pandemia do vírus nomeado Covid 19, ramificação do chamado Coronavírus, que se expandiu rapidamente em praticamente todas as nações. De janeiro a dezembro de 2020, centenas de milhões de pessoas foram contaminadas, internadas e aproximadamente 1,8 milhão de pessoas morreram em 2020 no mundo em decorrência da pandemia. No Brasil, foram cerca de 195 mil mortes, aproximadamente 10% do total de vítimas no mundo. Uma das características da gripe foi a forma como epidemiologistas e demais profissionais da saúde foram pegos de surpresa. Os casos se agravaram e se avolumavam em poucos dias, muitos tratamentos e remédios foram experimentais e se mostraram cientificamente ineficazes, como o caso de vermífugos e cloroquina consumidos em massa nos EUA e Brasil, apesar de complicações à saúde causadas por tais medicamentos. O mais surpreendente é a velocidade com que o coronavírus debilita os infectados, sendo os seus efeitos predominantes a perda da capacidade de respirar, o entupimento de artérias devido aos trombos que podem produzir desde paradas cardíacas, AVCs, entre outros, cujos efeitos colaterais aos sobreviventes são drásticos e exigem terapias longas de recuperação contra danos cognitivos, metabólicos e motores. Os casos mais graves da doença envolvem os idosos, levando à elevada mortandade destes. Durante o ano de 2020 havia pouco preparo contra um vírus tão mortal e houve reflexo sobre os sistemas de saúde mundo afora, resultando na falta de leitos em hospitais, riscos de colapso dos sistemas de saúde, além de situações de angústia de médicos ao terem que decidir quais pacientes devem ou não ser intubados, quem vive ou quem morre, como viu-se na Itália por volta de março e abril.

O dilema que surgiu com a rápida expansão da pandemia era o de manter ativa a economia, os postos de trabalho e horário de funcionamento de indústrias, estabelecimentos comerciais e educacionais, ao passo que o funcionamento destes seria responsável pela propagação da doença devido aos contatos sociais. Portanto, o dilema girava e gira ainda em torno da preservação da vida ou da atividade economia. Nos primeiros meses de pandemia alguns países pobres e desenvolvidos (como exemplos: Argentina, Chile, França e Alemanha)  promoveram o equilíbrio de políticas sociais, econômicas e pandêmicas subsidiando dívidas, salários, negociando ou congelando impostos com empresas e indústrias, a fim de manter a dignidade de seus cidadão e a manutenção mínima e salutar da economia. A consequência disso foi o endividamento dos Estados, ao passo que tal procedimento foi visto como um mal necessário, afinal de contas a população manteria-se ilesa e viva, sem vírus e sem fome. Rapidamente se verificou a eficácia do uso generalizado de máscaras, o que deu sobrevida às atividades econômicas, porém não resolveu definitivamente o problema, pois seu mal uso e mesmo a desobediência ou descuidos reduziram durante alguns meses, mas não solucionaram a expansão do vírus. Na Europa, devido às férias de verão entre julho e agosto, houve relaxamento das restrições e consequentemente o advento de uma segunda onda do vírus quando milhares de europeus resolveram viajar. 

EUA e Brasil se destacaram negativamente desde o início da pandemia. Donald Trump, presidente norte-americano, desdenhou da gravidade do vírus e acusou sem provas os chineses de o terem produzido em laboratório para prejudicar a economia global. Trump também insinuou o uso de vacina fabricadas a partir de detergentes e estimulou o consumo sem provas científicas da cloroquina, tão logo adotada e produzida no Brasil sob as ordens de Bolsonaro, presidente do Brasil. No entanto, devido à corrida presidencial eleitoral americana que ocorreu em meio à pandemia, Trump comportou-se de forma dúbia para agradar eleitores negacionistas e também os sedentos para a solução da crise, passando a defender o desenvolvimento de uma vacina eficaz, imunização em massa de sua população, a distribuição de recursos públicos às famílias de desempregados e empresas à beira da falência, ao passo que se apresentava em público sem máscara e promovendo aglomerações de seus eleitores em seus comícios. Trump acabou derrotado nas eleições americanas e a vacina foi liberada e aprovada por laboratórios e governos apenas em dezembro de 2020, após o pleito.

Bolsonaro, por sua vez, sequer manteve atitude dúbia em relação à pandemia. É certo que seu comportamento negacionista, anticientífico e inadequado contra todos os protocolos sanitários e procedimentos sensatos para a preservação da vida o tornaram o chefe de Estado mais estúpido e distante da realidade desse século, assim como o tornaram o mais infame, incompetente e ignorante gestor da crise pandêmica. Os argumentos de Bolsonaro, que desdenhava da pandemia como uma “gripezinha”, convenceram milhares de brasileiros e se baseavam nas seguintes premissas econômicas: Manter normalmente a atividade econômica, pois uma crise financeira decorrente de uma paralisação pandêmica poderia acarretar em maior número de prejudicados pelo desemprego e mortos de fome. Afirmava ainda que não poderia aumentar o endividamento público para conceder benefícios à população porque resultaria em crime de responsabilidade e eventualmente num processo de impeachment. E, finalmente, se apresentava aos meios de comunicação dizendo categoricamente que não havia recursos públicos suficientes para resguardar a sociedade durante a pandemia. A resposta de Bolsonaro ao dilema entre a saúde econômica e saúde humana se direcionava, portanto, à primeira das opções. Não custaria aqui lembrar que os governos do PT alcançaram a margem de U$300 bilhões (dólares) de reservas internacionais que perfeitamente poderiam ser utilizadas em situações como essa, ou seja, contribuiriam para que a população mais pobre tivesse acesso à renda em meio às paralizações derivadas da pandemia. 

Desde a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro se apresentava como um candidato neoliberal. Favorável às privatizações, corte de gastos públicos em áreas sociais e dedicado à entrega da economia brasileira aos interesses imperialistas norte-americanos, Bolsonaro durante a pandemia se mostrou fiel a tais premissas. Exemplo disso foi a bandeira levantada pelos partidos de esquerda no Congresso Nacional e prontamente negada pelo governo Bolsonaro para angariar fundos emergenciais, os conhecidos R$600,00 do chamado coronavoucher. Frente à adesão de partidos de centro direita à ideia do benefício, prontamente o governo Bolsonaro usurpou o projeto e se apresentou aos mais mal informados e necessitados como o autor de toda a concepção do benefício, como se sua idealização tivesse partido do próprio governo federal contra o congresso. Além disso, Bolsonaro sistematicamente estimulou a manutenção do funcionamento dos comércios, escolas e espaços públicos, apesar do crescente número de mortos entre abril e agosto. 

Governo Federal, governadores dos Estados e prefeitos divergiram a respeito da adoção ou não de políticas de isolamento sanitárias, conduzindo à descentralização das decisões e ao caos a gestão da distribuição de testes, insumos e recursos financeiros. Em 2020, dois médicos ministros da saúde foram demitidos (Mandetta e Nelson Teich, que permaneceu no ministério um mês) por se operem à produção realizada pelo exército e exigência de Bolsonaro para o uso em massa em pacientes infectados do cientificamente ineficaz medicamento cloroquina. 

Eduardo Pazuello, general da ativa do Exército, foi apresentado como competente especialista em logística para assumir o ministério da Saúde, porém se mostrou incapaz e inepto mesmo para negociar antecipadamente o abastecimento de vacinas no país, produzir qualquer segurança sanitária e sequer adquirir seringas e agulhas no mercado internacional. Os resultados foram leitos próximos da lotação e riscos permanentes de colapso do sistema de atendimento médico público e privado; populações afastadas tornaram-se desassistidas, principalmente indígenas, sem acesso a médicos e tratamentos; muitos hospitais de campanha permaneceram inacabados ou sem uso adequado ou desmontados meses antes do ápice da pandemia (início de 2021); houve ainda desvios de recursos públicos, prefeitos e governadores destituídos de seus cargos.

A suposta defesa da economia entoada por Bolsonaro destoava da ação de outros países que, por sua vez, aumentavam seu endividamento público a fim de resguardar a sua população contra a crise. Para a maioria dos economistas estrangeiros, mesmo entre os neoliberais, a intervenção estatal na economia em crises graves como as que enfrentamos em 2020 são mais do que justificáveis. No entanto, essa não era a opinião de Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro. Na década de 1970, Guedes foi aluno mediano e formado nas frentes reacionárias da Escola de Chicago de Friedman. Guedes inicialmente relutou em aceitar o coronavoucher, em seguida e pressionado propôs R$300,00, até o oportunismo de Bolsonaro se dar conta o quanto vantajoso seria politicamente aumentar o valor para R$600,00 (e R$1.200,00 no caso de mães que chefiam seus lares). Vale dizer que Rodrigo Mais, presidente do Congresso, foi quem primeiro aderiu à ideia do benefício que, como o dissemos, surgiu dos partidos de esquerda. Em seguida, Maia criou o chamado “orçamento de guerra”, que permitiu o governo constituir um orçamento pandêmico exclusivo e independente em relação ao plano orçamentário hodierno ou “normal”, sem prejuízos à lei de responsabilidade fiscal ao presidente da República. Guedes, por sua vez, concedeu tardiamente às empresas a redução dos salários, benefícios e jornada de trabalho, prejudicando a classe trabalhadora. A maioria das empresas deparou-se com a grande dificuldade, senão impossibilidade, de acesso aos créditos prometidos pelo governo federal. As taxas desemprego estão em ampla ascensão no Brasil e se acentuaram com a pandemia.

 Enquanto entoava sua crítica à pandemia ao estimular a manutenção da normalidade e abertura econômica, Bolsonaro e seus filhos (que ocupam cargos de vereador, deputado federal e senador) eram denunciados pela imprensa por casos de corrupção, as chamadas “rachadinhas” e interferência do próprio governo sobre a polícia federal para evitar o aprofundamento das investigações à família do presidente, levando à demissão o ministro da Justiça Sérgio Moro em abril, ex-juiz responsável pela prisão do ex-presidente Lula e que, por isso, havia se tornado um forte aliado de Bolsonaro. 

Para manipular a opinião pública e desviar a atenção da mídia em relação aos escândalos familiares, Bolsonaro reforçou o seu discurso negacionista, realizando pronunciamentos ao vivo  e em cadeia nacional na TV e rádio contra o isolamento e a gravidade do vírus; em frente ao palácio do governo em Brasília promovia declarações homofóbicas, racistas e machistas; acusava aos gritos e com rispidez os jornalistas que questionavam os escândalos familiares; estimulava o não uso de máscaras; realizava declarações contra prefeitos e governadores que promoviam restrições de circulação de pessoas nas ruas e funcionamento do comércio; e flertava com grupos que ansiavam por golpe militar, fechamento do Congresso e do STF. Seus filhos acusavam o governo da China, tido como comunista, por suspostamente propagar o vírus e com ele a crise econômica global com o objetivo de derrubar Bolsonaro. Ao lado do discurso da manutenção da estabilidade econômica e do negacionismo pandêmico, avolumaram-se os casos de feminicídios no país, assim como ações violentas racistas de forças de segurança contra a população negra nas periferias e favelas; os incêndios nas florestas brasileiras e no pantanal elevaram os recordes em termos de desastres. Bolsonaro procurou deturpar dados sobre incêndios e desmatamentos e estimulou tais práticas realizadas ou por parte de seu eleitorado, ou ao menos defendida pela totalidade de seus simpatizantes. Todos esses aspectos mascaravam o declínio da economia brasileira e os escândalos familiares de Bolsonaro.

A descentralização da tomada de decisões e o conflito entre prefeitos, governadores e presidente produziu na população uma série de efeitos devastadores e verdadeira acentuação da alienação mental e do trabalho. O crescente número de mortos gradualmente foi anestesiando a percepção da população. Produziu a desumanização não apenas frente ao aumento dos números presentes nos dados oficiais sobre internações e óbitos, mas também em relação às dificuldades pelas quais passam ainda os profissionais da saúde e que serão mais adiante comentadas. A gradual abertura promovida por estados e municípios e em conflito com o desejo do governo federal de manter todos os estabelecimentos funcionando normalmente, acabou dividindo a sociedade entre os favoráveis ou não sobre o isolamento.

Os que se mantinham fiéis às posições de Bolsonaro negavam sobretudo nas redes sociais a gravidade do vírus, ousavam em sair às ruas sem máscaras, postavam selfies em festas clandestinas e por vezes viagens. O pano de fundo de sua argumentação era a defesa dos estabelecimentos comerciais para a manutenção de empregos, consumo e da roda econômica como um todo. Entre os mais pobres que concordam com Bolsonaro o argumento trágico é do que seria melhor morrer por covid do que por fome, de modo que o mais razoável para estes indivíduos é manter seus pequenos negócios abertos, mesmo os informais, como vendedores de balas e bugigangas nas ruas. A população periférica, pobre e negra, que devido ao racismo estrutural no Brasil ocupa geralmente empregos de menor remuneração e qualidade de vida, é de fato a mais afetada pela manutenção da abertura econômica em meio à pandemia. Concordando ou não com as posições de Bolsonaro, vivendo em favelas ou em casas pequenas com muitos familiares, quando empregados utilizam transportes públicos em condições inadequadas e seguem em direção aos locais longínquos onde trabalham. Se locomovem amontados e ao lado de outros tantos trabalhadores nos ônibus e metrô, aumentando o risco de disseminação do vírus em seus trabalhos, lares e comunidades. Soma-se a isso tudo a dificuldade que centenas de milhares dessas famílias têm em manter seus filhos na escola, seja pela falta de conectividade à internet ou mesmo pela ausência de computadores dentro de casa, promovendo índices recordes de evasão e desistência dos alunos nos níveis básico, fundamental e médio. Estudos sobre os impactos do “ano educacional perdido” estão por vir e deverão anunciar também uma tragédia no ensino, sobretudo o público. 

O argumento principal dos que se opunham à abertura econômica e se manifestavam contra Bolsoronaro era o de que preservar vidas seria mais importante do que preservar a economia, de forma que os estabelecimentos deveriam permanecer fechados. No entanto, a solução dessa oposição entre os favoráveis e desfavoráveis às visões de Bolsonaro deve ter sua resposta num procedimento que o próprio Bolsonaro sequer procurou adotar, embora outras nações o fizeram. Entre as medidas razoáveis adotadas por outras nações, algumas delas mais endividadas que o Brasil, destacam-se: elevação de impostos sobre os mais ricos e seus bens; elevação dos papéis da dívida pública para subsidiar a sustentação da população no período pandêmico, que ocorrem ao lado de severas restrições ao funcionamento do comércio e outras instituições; aumento de investimentos em tecnologias de informação para sustentar empregos, educação e entretenimento, geradores de riquezas. Além disso, não nos esqueçamos das já citadas reservas internacionais brasileiras que possuem o valor estimado de U$300 bilhões (dólares) e que poderiam ter estimulado a economia, sustentado empregos e dado margem de segurança para a concessão de mais benefícios aos pobres.

A partir de setembro o comércio iniciou um processo de reabertura, decorrente da queda do número de óbitos da pandemia e o estabelecimento de protocolos sanitários em escritórios, empresas, indústrias, entre outros. Tomadas as medidas sanitárias necessárias e razoáveis, como o uso exaustivo de máscaras e álcool-gel, lavagem de mãos, distanciamento mínimo entre pessoas e mesas, surgiu a expressão que desagrada a muitos, o “novo normal”. Os novos protocolos foram tornando o retorno gradual possível, estimulando os segmentos brancos, de classe média e mais abastados a retornarem com muitas restrições às suas atividades, o que contrastava com o trabalho informal ou subemprego dos mais pobres e maioria negra. Entre setembro e novembro as escolas e as faculdades reabriram na cidade de São Paulo, primeiro estimulando atividades extracurriculares com limitação de participantes; depois com modelos híbridos de aulas, ou seja, professores em sala de aula ao lado de alguns poucos alunos e outros tantos em suas casas e on-line (remotamente). 

A gradual flexibilização das medidas restritivas e os protocolos sanitários traziam formas ponderadas mínimas de socialização e funcionamento do comércio. Foram abertos restaurantes, bares, academias de ginástica e mesmo alguns poucos cinemas. Todas essas medidas de amplo controle sanitário, muitas deles contestadas e contestáveis, ainda assim contrastavam com as atitudes de Bolsonaro, que seguiu estimulando aglomerações, o não uso de máscaras, despreza o álcool gel e agora acusava de sensacionalismo os meios de comunicação, a comunidade científica e especialmente epidemiologistas contrários às suas próprias visões. Quanto mais a economia afundava na crise e escândalos familiares se perpetuavam, mais Bolsonaro procurou desviar a atenção do público com o seu negacionismo científico, desdenhando também o número crescente de mortos por Covid-19.