O idealismo distópico pandêmico | Parte 4

O idealismo distópico pandêmico | Parte 4

Coluna do Paulo Niccoli Ramirez
Coluna do Paulo Niccoli Ramirez

Golpe natural

Contra a maneira como as sociedades se organizam há golpes militares, imperialistas (conflitos entre civilizações); religiosos e fundamentalistas, civis ou mesmo populares. Há também os golpes da natureza. Os golpes naturais são os únicos em que apenas a natureza (e não a humanidade) estabelece o destino ou não do humano. Entre os golpes naturais há os físicos e biológicos. Os golpes naturais físicos correspondem aos terremotos, enchentes furações, tsunamis e erupções, entre outros que tem origem em manifestações físicas da natureza. Os golpes biológicos podem ser vírus, pragas, bactérias e outros que se originam a partir de manifestações (também biológicas) e que se tornam incontroláveis diante da ação humana, podendo levar ao risco de dizimação total, parcial ou mais restrita de comunidades de seres humanos. Ainda que soe como redundante, é preciso dar destaque aos golpes naturais biológicos diante do contexto da epidemia que atingiu a humanidade em 2020 com o Coronavírus.

 Poderia ser questionado se mudanças climáticas correspondem aos golpes naturais físicos contra a humanidade. No entanto, mudanças climáticas como as que vivemos hoje correspondem sim a uma combinação de golpes físicos, biológicos e um movimento de civilicídio (isto é, quando uma civilização promove o seu suicídio, talvez fenômeno mais visível no capitalismo predatório em relação à natureza e no comportamento que muitos brasileiros adotaram no final do ano no Brasil em 2020). Nada impede que o Coronavírus possa ter sua origem num período pré-histórico, talvez tenha descongelado com o aquecimento global. O vírus pode ter “reaparecido” em nosso planeta devido a ação humana. Caso essa hipótese seja verdadeira, podemos relacionar a atual pandemia aos golpes físicos e também ao civilicídio de nossos tempos, devidos as mudanças climáticas decorrentes do comportamento humano. Quanto aos vírus e doenças transpostas pelos europeus à América durante o período colonial, entre elas a varíola, tifo, sarampo e gripe, não podemos esquecer que elas foram responsáveis pelo processo de dizimação das sociedades indígenas no continente. Nesse caso, houve civilicídio aliado a um golpe natural biológico, responsável por fortalecer e auxiliar o imperialismo europeu na América e, consequentemente, usurpar com o uso do trabalho escravo as suas riquezas naturais.

O civilicídio cometido pela sociedade capitalista moderna corresponde ao fenômeno no qual o interesse privado e o poder econômico tornam-se mais relevantes que a manutenção das condições de preservação da vida coletiva e/ou dos recursos naturais que a sustentam. Seja como for, estamos diante de um golpe natural. Como vimos, golpes naturais não são imediatamente controláveis, previsíveis e se sobrepõe sobre as decisões humanas. O Covid-19, sendo um golpe natural  passa a exigir primeiro que as ciências naturais e biológicas, sobretudo epidemiologia, nos forneçam respostas que alcancem as causas naturais, e não meramente simbólicas-negacionistas, para que se possam construir soluções científicas para garantir a manutenção do maior número de vidas. 

Diferentemente de Aganbem que afirma a existência de uma guerra mundial que conduz à biopolítica, talvez fosse o caso de considerar sim como uma guerra humanal, entre o humano e o natural, nossas tropas são os profissionais da saúde e nossos anticorpos. As armas serão as vacinas e a estratégia deveria ter sido desde o início o maior isolamento social possível e a adoção e a obediência aos protocolos sanitários para o convívio social. Caberia a muitos ditos humanistas ouvir primeiro os profissionais e pesquisadores da saúde para depois emitir comentários, ainda que vãs opiniões. 

Embora o vírus seja simbolizável e se possa avaliar criticamente políticas de controle populacional e à liberdade individual, impactos sobre a atividade econômica e mesmo procurar interpretações para justificar a desobediência em relação as recomendações sanitárias, é que o Covid-19 não é originalmente provido de símbolo algum, não sendo ele um tirano ou um liberal, nem de esquerda ou de direita, nem marxista ou foucaultiano, não é bolsonarista nem cordialmente negacionista como muitos brasileiros. A maioria das interpretações parece fornecer predicados morais humanos ao vírus, responsabilizam de maneira coerente a incompetência de governos e gestores públicos, mas esquecem que se trata primeiro de um golpe natural que exige conhecimentos científicos específicos voltados aos estudos das disposições metabólicas do vírus sobre o corpo humano e de como evitar socialmente sua proliferação. Por conseguinte, qualquer pacto social deve ser o de resguardar o maior número de vidas, se possível todas elas. A partir disso é que economistas, sociólogos, antropólogos e filósofos devem iniciar seus debates e contraposições.