O idealismo distópico pandêmico | Parte 3

O idealismo distópico pandêmico | Parte 3

Coluna do Paulo Niccoli Ramirez
Coluna do Paulo Niccoli Ramirez

Parte 3

Idealismo distópico de Agamben

Outra faceta do que estamos aqui designando como alienação intelectual ou mental frente à pandemia pode ser verificada no texto do filósofo italiano Giorgio Aganbem publicado durante o ano de 2020 e motivado pela situação pandêmica. Segundo, Yara Frateschi:

Entre fevereiro e abril de 2020, Giorgio Agamben publicou uma série de textos de intervenção dedicados ao tema da pandemia do coronavírus. A tese com a qual ele inaugura as suas reflexões, agora reunidas em Reflexões sobre a peste: ensaios em tempos de pandemia (trad. Isabella Marcatti, Boitempo), com prefácio de Carla Rodrigues, é a de que a epidemia é “uma invenção”. Baseado nos relatórios do Consiglio Nazionale dele Richerche – segundo os quais apenas 4% dos pacientes teriam necessidade de hospitalização, enquanto a maioria da população teria sintomas leve como os da gripe – o filósofo vem a público defender que as medidas de emergência adotadas pelas autoridades italianas para o combate a uma “suposta” epidemia são “frenéticas, irracionais e totalmente imotivadas”. (Frateschi, Agamben sendo Agamben: o filósofo e a invenção da pandemia. Blog da Boitempo, 2020 – versão on-line: https://blogdaboitempo.com.br/2020/05/12/agamben-sendo-agamben-o-filosofo-e-a-invencao-da-pandemia/ – consulta: jan, 2021.

Bastaria dizer que o argumento apresentado acima não é diferente ao de Bolsonaro, que no seu discurso em cadeia nacional no dia 24 de março de 2020 relativizava o eventual e futuro número de mortos no Brasil, sendo o mais importante garantir o normal funcionamento da economia. Além disso, podemos aproximar o pensamento pandêmico de Agamben à noção de banalidade do mal de Hannah Arendt, o que exigiria uma outra reflexão em um outro texto. Entre os textos de Agamben destaco “A medicina como religião”. Há alguns pontos polêmicos, como a relação escatológica entre religião e medicina, algo entre o apocalipse e o colapso, mito e ciência, controle religioso e controle medicinal sobre o comportamento e as populações. 

No entanto, penso que o problema central do texto está no seu caráter intempestivo, o que me faz pensar Agamben como um gênio e um maldito ao mesmo tempo. Maldito porque se aproxima do fascismo, criticando-o. Julgo-o também maldito porque seus argumentos pertencem às variações do que designamos como idealismo pandêmico distópico, que despertou no ano de 2020 (discutiremos logo adiante).  Seu texto é perigoso, pois desconsidera que estamos diante de um inimigo biológico, que não é simbólico como os humanos, mas que pode ser simbolizado pelas sociedades e culturas. Aganbem, no entanto, direciona a análise para uma noção de guerra civil mundial. Há de fato no saber médico um biopoder e uma eficácia simbólica, mítica, como indica Agamben. Porém, o filósofo se esquece que antes de ser um inimigo simbólico e permitir que os governos realizem ações de restrições e controle sobre corpos e a liberdade individual, o Covid 19 pertence a uma esfera biológica, trata-se de uma doença de tiro curto e globalizada. Yara Frateschi indica a dimensão do problema:

Em suas reflexões sobre a crise do coronavírus, Giorgio Agamben chega às raias do rompimento com a verdade factual e nem mesmo as milhares de mortes ou o colapso dos sistemas de saúde em diversos países do mundo o demovem da tese de que as medidas de contenção, como o distanciamento social, sejam “irracionais” e “imotivadas”. Em nenhum momento abordada como um problema de saúde pública, a pandemia teria sido inventada para restringir liberdades e manter o estado de exceção como paradigma normal de governo. Embora os textos do filósofo italiano estejam causando espanto – até pelas semelhanças entre aspectos do seu discurso com o de Jair Bolsonaro –, devemos reconhecer que a sua posição sobre a crise do coronavírus é coerente com a sua obra, especialmente com o esquema para explicar a afinidade entre o biopoder e o estado de exceção na modernidade. O esquema já estava pronto, Agamben o aplicou ao caso.

Além de perigoso, o pensamento de Aganbem possui um aspecto ingênuo, por isso idealista distópico. Ingênuo porque relaciona a necessidade dos governos restringirem o movimento e a liberdade das pessoas (confinando-as em suas residências durante o que supõe ser a invenção de uma situação grave pandêmica) quando hoje com o avanço das tecnologias de informação presentes em celulares, aplicativos e outros produtos conectados à internet já são realizados esses controles dentro ou fora da casa sobre os indivíduos conectados às redes. Ou seja, com ou sem pandemia existem controles eletrônicos e digitais sobre a privacidade dos cidadãos, controles estes invisíveis e oniscientes sobre suas visões de mundo, gostos e locomoção. 

A visão idealista distópica pandêmica está presente nas reflexões de Agamben e também nos argumentos e suas variações que discutimos no tópico anterior, quando debatíamos outros tantos argumentos que no Brasil procuraram relativizar as aglomerações, viagens e festividades de final de ano em discordância às recomendações sanitárias. O ponto de partida para a crítica ao idealismo distópico pandêmico concentra-se na tentativa de áreas como a filosofia, sociologia e antropologia exercerem alienação mental ou intelectual no interior de suas próprias reflexões, à medida que suas abordagens estão inspiradas em exposições ou visões externas à realidade e relações concretas ou materiais de trabalho que hoje os profissionais e pesquisadores da saúde estão enfrentando diante da pandemia. Algumas das visões dessas áreas das ciências humanas têm cometido erros de interpretação. Suas premissas, embora aparentemente lógicas e assertivas, tornam-se ao mesmo tempo distópicas e idealistas porque desconsideram o trabalho alienado dos profissionais de saúde diante da atual situação, a qual alcançou níveis alarmantes de exploração e danos psicológicos a estes profissionais de saúde. Desse desconhecimento e desdém promove-se em todas essas visões interpretações individualistas que promovem a desumanização do trabalho daqueles que estão na linha de frente dos hospitais. O trabalho alienado dos profissionais de saúde se converte na alienação intelectual ou mental de alguns sociólogos, antropólogos e filósofos.

O idealismo distópico pandêmico parte da premissa de que suas interpretações em maior ou menor grau são favoráveis ou às grandes aglomerações ou quantidades graduais de indivíduos em encontros sociais, festividades e ambientes públicos. O idealismo distópico pandêmico também observa de forma negacionista o papel da epidemiologia quando critica qualquer sugestão de restrição às liberdades de ir e vir. As distopias idealistas estão presentes em qualquer outra explicação que se queira dar para justificar porque as pessoas estão ou devem circular normalmente, apesar da pandemia e das restrições. Outro dia li um texto sociológico afirmando que deveríamos concentrar a crítica não às pessoas que estão viajando ou às aglomerações, senão aos militares e ao que o texto considera como incompetência administrativa do exército brasileiro e presente no governo Bolsonaro. Na verdade, como vimos acima, uma crítica coerente e não idealista distópica pandêmica, portanto, uma crítica materialista, por assim dizer, deve apontar e promover políticas econômicas que permitam garantir o isolamento social até que haja vacinação, conforme destacamos nos tópicos anteriores. 

O idealismo distópico analisa a situação da pandemia a partir de modelos pré-fabricados, quando na realidade devem ser considerados como meramente interpretativos. Deve-se conhecer a situação, seus dados, conversar com profissionais da saúde e jamais tornar tantas mortes em meros números e relativizá-los ou enquadrá-los num esquema teórico previamente estabelecido por esses modelos interpretativos. Isso significa dizer que é preciso abandonar o pedantismo adotado, por exemplo por Aganbem e, primeiro, reconhecer e saber ouvir as ciências que giram em torno da saúde pública, seus estudos e reflexões. 

As ciências da saúde e mais especificamente a epidemiologia devem ser o ponto de partida de qualquer análise sóbria, antes mesmo que se tire qualquer conclusão. É a partir dessas ciências que devemos debater se devemos ou não promover paralisações. A partir da coleta dos dados e de informações sobre as condições materiais de trabalho desses profissionais da saúde poderemos então pensar em propostas de revisão orçamentária de uma nação para garantir paralizações econômicas com o objetivo não só de evitar um maior número de mortos, como também evitar o colapso do sistema de saúde. Os gastos a serem elevados, portanto, devem ser direcionados para promover políticas de isolamento social e cobrir prejuízos econômicos da sociedade. 

Qualquer análise sóbria da pandemia deve partir das condições de trabalho intelectual e operacional realizados pelos profissionais de saúde que estão na linha de frente e nas mentorias de pesquisas sobre a Covid-19, como médicos, pesquisadores, profissionais da limpeza, enfermeiros, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. É preciso reconhecer a existência da acentuação do trabalho alienado nessas áreas durante a pandemia. Reconhecer a exposição desses profissionais à sobrecarga de trabalho e traumas psicológicos decorrentes dos impactos da pandemia afasta nossa abordagem de visões idealistas distópicas que são sinônimos da alienação mental frente as condições históricas e materiais as quais os profissionais de saúde estão expostos.

Como metodologia de estudo para o texto que aqui apresento procurei informantes que estão na linha de frente e com eles informações sobre outros tantos profissionais que relatam suas experiências entre os próprios colegas de trabalho. Para preservar a privacidade e os empregos desses profissionais, mencionarei agora alguns relatos sem identificar quem são os “informantes”, os hospitais em que trabalham e muito menos como cheguei até eles, embora possa perfeitamente dizer que as redes sociais me ajudaram a promover alguns diálogos em forma de entrevistas com alguns desses profissionais. Entre os elementos que destaco estão o crescimento em São Paulo da quantidade de internados nos leitos de UTIs e mortos, sobretudo a partir do final de novembro; profissionais fatigados com excesso de trabalho; os chamados EPIs são necessários, porém incômodos, produzem desde tontura até falta de ar como em dias quentes e devido ao calor, por exemplo, com o uso de máscaras; muitos profissionais da linha de frente foram internados, outros tantos morreram com Covid-19, outros se suicidaram (há um relato de um enfermeiro que se suicidou dentro da UTI de um hospital privado na Vila Mariana em São Paulo); há ainda os profissionais que estão desertando, abandonam o fronte desanimados diante da sobrecarga de pacientes que estão por vir nos primeiros dias do ano de 2021, devido às negligências realizadas em massa em relação às recomendações sanitárias. Outros profissionais estão com traumas psicológicos. Relatos indicam 8, 12 a 14 mortos todos os dias nas UTIs. Os protocolos médicos exigem que se tentem fazer reanimações cardíacas durante 45 minutos. Enquanto um paciente está sendo reanimado e agoniza, no limite entre a vida e a morte, um ou dois outros corpos entram em colapso, exigindo que os profissionais da saúde se desloquem de um lado para o outro, todos os dias, tentando salvar seus pacientes. Choros, angústias e depressão são alguns dos sintomas relatados por esses profissionais, sobretudo quando ocorrem as últimas conversas com os pacientes antes de saberem que serão entubados e deixados sob coma induzido. Pacientes desesperados argumentam para que não os deixem morrer, mandam mensagens aos familiares pelos celulares que podem ser infelizmente sua última comunicação com a família. Após muitos dias de internação, parentes de pacientes graves se revoltam com os profissionais por serem impedidos de entrar nas UTIs. Não se trata aqui de promover um discurso sentimentalóide, porém ignorar a situação na qual os profissionais de saúde se encontram hoje e não perceber a possibilidade matemática de colapso dos sistemas de saúde representam um ato de desrespeito e ignorância quanto à alienação do trabalho exercido sobre os profissionais da saúde, fazendo das demais interpretações meros posicionamentos idealistas distópicos.