O idealismo distópico pandêmico | Parte 2

O idealismo distópico pandêmico | Parte 2

Coluna do Paulo Niccoli Ramirez
Coluna do Paulo Niccoli Ramirez

Parte 2

O levante do bolsonarismo funcional no final de 2020

É bem certo que no contexto de pandemia as condições de isolamento entre mais ricos e a classe média são também contrastantes com as condições dos mais pobres. A principal queixa desses segmentos geralmente brancos, de classe média e abastados é o isolamento. A frustração destes, quando mantidos seus empregos (agora remotos) e exercendo o home office, gira em torno da nostalgia do tempo em que podiam se locomover pela cidade e em direção aos cinemas, teatros, festas, parques, confraternizações, viagens. É evidente que qualquer indivíduo provido de condições de consumo e horas livres para o lazer, concordando ou não com Bolsonaro, sentiria falta e se entristeceria afastado dessas atividades e fazendo de seu lar o seu ambiente de trabalho. Durante o ano de 2020 perpetuaram-se dramas psicológicos individualistas em que a ausência da satisfação pessoal, do consumo presencial, em público e literalmente massificado alienavam muitos indivíduos dos dramas concretos, materiais, sociais ou se preferirem coletivos daqueles que sofriam com desemprego ou com as condições de trabalho e transporte em direção aos seus subempregos, apesar da pandemia.

A angústia daqueles que puderam ficar em casa com home-office, salário e previsibilidade orçamentária deu origem a uma alienação do trabalho e da consciência dentro do próprio lar. Alienação do trabalho porque de maneira inédita na história da humanidade uma pandemia não foi capaz de brecar a totalidade do funcionamento da economia e da sociedade devido à era da internet. Houve isolamento físico, mas não social para os que tiveram condições econômicas de terem acesso à internet. Horas de trabalho em frente ao computador e ao celular, ao lado de filhos também confinados e demais questões familiares trouxeram principalmente à classe média a popularização definitiva de uma nova forma de exploração do trabalho em que o tempo de lazer, o tempo de trabalho e o tempo para estudos estão unificados, se tornam homogêneos, alavancando danos psicológicos, pois se cria a sensação de que se está a todo tempo trabalhando, produzindo fadiga.

No final do ano de 2020 podemos destacar as festas de final de ano e férias de janeiro. Muitos desses segmentos que se mantiveram isolados ou se locomoveram pela cidade e rumo ao trabalho seguindo os graduais protocolos sanitários durante o ano, contraditoriamente passaram a adotar posturas próximas dos negacionistas bolsonaristas, alcançando a unidade dos contrários ou se preferirem um bolsonarismo funcional. Esse aspecto constitui a alienação mental diante da pandemia e merecerá a partir de agora uma avaliação mais aprofundada, pois conduz a problemas de interpretação, perda de sensibilidade e desumanização das visões que inclusive muitos sociólogos e antropólogos, entre outros indivíduos ditos humanistas, têm adotado ao se referirem à forma como a população brasileira em massa tem negligenciado as exaustivas recomendações sanitárias ao optarem por viagens, festas aglomerações e o não uso de máscaras.

A alienação mental por parte dos doutos foi explicitada no programa “Em Pauta” da Globo News no final de 2020 quando o sociólogo Demétrio Magnoli e o jornalista Gerson Camarotti discutiram de forma ríspida a presença em massa de brasileiros em festas de final de ano, viagens de férias e praias. Demétrio alertou ao jornalista que devemos buscar causas sociológicas e antropológicas para compreender tal comportamento (outro dia li em uma rede social uma socióloga dizendo que devemos buscar os motivos na psicologia social) e, de alguma forma, justificou o comportamento refletindo sobre as condições as quais as pessoas estão expostas, entre eles riscos de contaminação durante o ano nos meios de transporte, trabalho ou mesmo a violência física cotidiana e policial. Camarotti, por sua vez, contestou dizendo que a ciência deve ser para todos e, portanto, todos os que não estão obedecendo as recomendações sanitárias seriam então irresponsáveis. Foi curiosa a declaração do parlamentar negacionista conhecido como Feliciano, que afirmou que o sociólogo Demétrio passou a estar “do lado branco da força”, isto é, concorda com Bolsonaro.

Outros argumentos, como o de Demétrio, afirmam que a população mais pobre habituada à violência nas periferias não observaria com a mesma gravidade o risco de morte por covid se comparados aos indivíduos abastados. No entanto, o que vimos principalmente foram festanças e viagens praticadas por indivíduos pertencentes a diferentes segmentos econômicos, ricos, pobres e classe média, sendo estas manifestações divulgadas por meio de imagens ostentosas nas redes sociais. Não se pode afirmar que tenha sido por falta de informação a tomada de decisão desse  tipo de comportamento negacionista, pois a atual pandemia promoveu amplo e diário destaque na mídia mundial, como também foi a situação pandêmica de maior conhecimento científico divulgado sobre práticas de controle e elaboração de protocolos sanitários com a utilização dos meios de comunicação, propagandas em letreiros nas ruas, transportes públicos e por meio das escolas conectadas à internet.

Outro argumento é o de que o desrespeito às recomendações sanitárias feitas por epidemiologistas não seria um fenômeno restrito ao Brasil, sendo identificado mesmo em países desenvolvidos como na França e na Alemanha, de modo que não poderíamos condenar o comportamento coletivo apenas do brasileiro, posto que ele é motivado por causas externas variáveis, como excesso de tempo de isolamento entre outras restrições e danos psicológicos.  No entanto, parece que embora esteja correto o argumento, ele se limita a não procurar entender a especificidade do fenômeno no Brasil. Isso porque em outros países essas restrições às festas e viagens de final de ano foram proibidas e estiveram sujeitas a punições e medidas legais. Mesmo onde leis de restrições pareciam ser mais brandas, a quantidade de indivíduos que desrespeitaram as recomendações pareceu ser menor em relação ao que vivos no Brasil. Desde o período que encerra o ano, entre o final de novembro até às vésperas de natal, nas mais diferentes cidades do Brasil o que se viu foi um grande volume de pessoas circulando em torno dos comércios, muitas delas sem máscaras e aglomeradas para comprar produtos e alimentos para as festividades. Em outras nações o que se observou foram exceções à regra. No Brasil o que se verificou foi a exceção como norma, a exceção sistematicamente praticada e violando princípios de saúde coletiva, de forma que milhares de pessoas pareciam realizar atividades como se simplesmente não houvesse pandemia. No Brasil valores tradicionais e familiares superaram decisões vinculadas à racionalidade ao bem coletivo. Esses mesmos valores promovem generalizada relativização e alienação em relação aos dados científicos e recomendações sanitárias, promovendo o interesse pessoal contra o interesse público. Esse comportamento veio acompanhado com o novo e gradualmente crescente número de infectados e mortos devido ao vírus.

No final do ano, governadores, prefeitos e presidente pareciam agora concordar sobre a permanência da abertura do comércio, afinal de contas, seria preciso garantir os ganhos comerciais do período de final de ano e férias. Começava assim a incontestável vitória do argumento de Bolsonaro, isto é, manter a economia “aberta”, pois ela seria mais relevante do que proteger vidas devido à pandemia.

Dados de agosto até o final de outubro indicavam a queda no número de óbitos e menor quantidade de infectados. Hospitais de campanha foram desmontados e desativados. Este cenário promoveu certo otimismo no país, alavancando a crença (sem nenhuma fundamentação científica) de que o pior já havia passado, o que levou governos, empresas e escolas a promoverem graduais aberturas. Tudo isso estimulou a aposta de muitos em pacotes de viagens para o final de ano e férias. Ainda que os dados oficiais já apontassem a nova expansão do vírus do Brasil a partir do final de novembro até janeiro de 2021, a chamada “segunda onda” não desmotivou os planos de indivíduos que deveriam ter se mantido isolados, muito deles opositores do próprio Bolsonaro e arautos da defesa da ciência e da racionalidade entre seus colegas de profissão e familiares.  

Nas semanas que correspondem ao período de férias escolares, principalmente natal e ano novo, incontáveis festas públicas e privadas foram organizadas no país. Famílias foram reunidas, a ocupação de hotéis elevada, viagens a lugares distantes realizadas, confraternizações avolumaram-se, milhares de pessoas agrupavam-se nas praias, tornando o negacionismo à brasileira sui generis porque não um, alguns ou uma porção de indivíduos realizaram uma ou outra festa, senão porque sistematicamente centenas de milhares de pessoas promoveram o coletivicídio e aderiram ao discurso do presidente Bolsonaro direta ou indiretamente em meio ao crescimento dos índices. Apoiadores e não apoiadores de Bolsonaro aproximaram-se contraditoriamente a uma mesma causa, que na essência reforça o argumento negacionista científico em nome da abertura de todas ou ao menos algumas atividades econômicas que poderiam não ter sido realizadas. 

Obviamente, a eloquência do senso moral daqueles críticos de Bolsonaro foi empregada para justificar afinal de contas porque haviam participado de festanças, viagens e aglomerações quando os epidemiologistas desaconselhavam todas essas atividades. Os mais intelectualizados expunham seus exames de sorologia positivos ou negativos aos mais ou menos próximos, criando uma ciência própria e provinciana para defender a não obediência às recomendações sanitárias, afinal de contas haviam passado por momentos difíceis, de muito trabalho e pressões psicológicas o ano todo, de modo que julgaram-se exceções às regras e tornaram a satisfação pessoal mais importante do que o interesse coletivo. Outros tantos argumentavam que a viagem já estava paga (muitas delas compradas entre agosto e novembro, quando os índices relacionados à pandemia estavam em queda) e, portanto, não gostariam de ter prejuízos e com isso minimizavam suas atitudes, criando todo tipo de justificativa, ainda que em alguns casos sugerindo obediências aos protocolos.