E o passado é uma roupa que não nos serve mais

E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Coluna do Felipe Magalhães
Coluna do Felipe Magalhães

O regime democrático brasileiro ainda é um fato recente. O entulho autoritário oriundo do regime ditatorial vigente de 1964 à 1985 ainda ronda o espectro político da nossa sociedade, tanto no imaginário das pessoas quanto na atuação de algumas “raposas” que ainda disputam eleições nos municípios brasileiros. 

Nossa querida Estância Turística de Ribeirão Pires é mais um exemplo desse cenário. Durante décadas a cidade foi governada por dois políticos tradicionais, homens de sua época, conservadores e avessos ao crescimento da cidade. O lema era manter o aspecto provinciano e a presença das famílias que “fundaram” a cidade nos espaços de Poder. Não havia Lei de responsabilidade fiscal. As relações pouco transparentes e supostamente não republicanas ocorriam nos gabinetes, a população era mera espectadora dos governos municipais, ávida pelas “benesses” que os prefeitos poderiam lhes proporcionar. Uma práxis responsável por uma cultura política personalista, antagônica aos princípios da cidadania que ganhariam força com a Promulgação da Constituição de 1988.

Ribeirão Pires acomodou sua classe política sob essa lógica desde sua emancipação até o início dos anos 90. Já no processo eleitoral de 1992 apresentava-se uma alternativa ao conservadorismo local, uma figura que se contrapunha ao establishment: mulher, professora, sindicalista. Alguém que não tinha em seu sobrenome bairros ou ruas da cidade. Uma parcela expressiva dos eleitores já indicava que o jogo mudaria. Em 1996 a Professora Maria Inês foi eleita pelo Partido dos Trabalhadores. Foram oito anos de quebra do conservadorismo, espaços de participação social, promoção da integração regional, transparência na gestão pública. Tudo isso era novidade em Ribeirão Pires. A cidade foi devidamente inserida no Grande ABC e passou por uma reconversão econômica. A desindustrialização obrigava que a gestora propusesse uma nova perspectiva. Ciente de seu papel de articulação, a Prefeitura organizou Fóruns e Conferências para a construção de uma Agenda de Desenvolvimento Econômico Sustentável. Os diferentes atores sociais, políticos e econômicos debateram juntos o futuro da cidade. Havia uma atmosfera de otimismo que resultou no título de Estância Turística obtido junto ao Governo do Estado de São Paulo.

Ingressamos no século XXI sob uma importante mudança na conjuntura política nacional. A esquerda chegou ao Poder pela via democrática e em poucos anos o medo plantado pelos setores conservadores deu lugar ao otimismo. O crescimento econômico e a geração de empregos trouxeram de volta não apenas o sorriso, mas também o poder de compra dos brasileiros. Porém, conservadorismo e a velha política alijados do Poder tanto no nível municipal quanto no nível Federal permaneciam vivos e trataram de se organizar para voltar ao Poder na cidade. Precisavam de uma figura que pudesse representar esse conservadorismo, as tradições e o ambiente provinciano elitista tão querido pelas famílias seculares de Ribeirão Pires. Encontraram em Mauá um político habilidoso, bom de retórica e sobretudo ideologicamente alinhado com esse conservadorismo: Clóvis Volpi. Expoente antipetista no Grande ABC, detentor de uma retórica direitista até para os padrões do PSDB, o então deputado reunia a força política capaz de derrotar o petismo. A  demonização da esquerda, o discurso raivoso contra sindicatos e movimentos sociais fizeram de Volpi o grande expoente do conservadorismo ribeirãopirense. As eleições de 2004 o consagraram como Prefeito de Ribeirão Pires. Ironicamente Volpi governou a cidade no período áureo do petismo em nível nacional. Como diria um sábio político de barba hirsuta “nunca na História desse país” tanto recurso federal foi transferido para o município de Ribeirão Pires. Com o PIB em franco crescimento e o desemprego em queda, Volpi “surfou” nesta conjuntura. Sua aprovação como gestor público era notadamente decorrente desse contexto econômico positivo. Denúncias de corrupção, familiares em cargos de confiança, ausência de participação e transparência marcaram os oito anos de Volpi a frente do Executivo Municipal.

O que esperar dos próximos quatro de anos de gestão Volpi? Se considerarmos toda a articulação que o levou ao terceiro mandato e sua atuação direta para a eleição da mesa diretora da Câmara Municipal não há como ser otimista. Com uma coleção de processos judiciais e uma fraude processual constatada pelo Tribunal de Justiça, Volpi realizou uma costura política frágil, repleta de idas e vindas que poderá romper a qualquer momento. Prometeu a vaga de vice para um, depois voltou atrás, prometeu a Presidência da Câmara para outro, depois voltou atrás. Seus aliados perceberam muito rapidamente que os acordos políticos chancelados por Volpi têm prazo de validade curto e isso pode gerar muita instabilidade. Um governo sempre no limite da ruptura é ruim e custa muito caro. 

Além da fragilidade dos acordos políticos devemos destacar a instabilidade jurídica. O que teria levado o Prefeito a romper de última hora o acordo para a Presidência da Câmara, colocando seu próprio filho na linha sucessória do Poder Executivo Municipal? O risco de que a cidade poderá ser governada pelo Presidente da Câmara. A qualquer momento Prefeito e vice poderão ser afastados e como não há confiança em nenhum outro aliado, Volpi optou por garantir que o Poder transitório continue na família. Mais uma perda para a cidade. O cenário que se apresenta é de uma Câmara subserviente aos interesses do Prefeito, sem a autonomia e a independência necessárias para que de fato haja equilíbrio entre os poderes. Não se trata de torcer contra. Sou morador e contribuinte de Ribeirão Pires, utilizo o serviço público municipal. O cenário nacional nos ensina que a atuação pregressa de um político diz muito sobre sua atuação no futuro. Quando a esquerda denunciava que Bolsonaro não era o “novo” e não passava de um parasita autoritário e conservador no Congresso Nacional, muitos pagaram para ver e o levaram à Presidência da República. Política não é jogo de futebol, política é a condição para o bom funcionamento do Processo democrático. Ao votarmos escolhemos um projeto político, um programa de governo, um conjunto de políticas públicas que devem contribuir para a melhora da vida das pessoas. Precisamos ficar sempre atentos aos sinais e esses sinais em Ribeirão Pires não são nada bons. 

Muita coisa está em risco no Brasil de 2021. Muitas vidas estão se perdendo em função da incompetência, da truculência e do negacionismo. A crise econômica é preocupante e o cenário não é promissor. Apenas a fiscalização permanente e o engajamento coletivo farão com que os gestores públicos façam aquilo que a população realmente precisa. Não podemos baixar a guarda!