Coluna | Pequena História da ignorância no Brasil

Coluna | Pequena História da ignorância no Brasil

Coluna do Paulo Niccoli Ramirez
Coluna do Paulo Niccoli Ramirez

Ignorância e conhecimento científico têm em comum o fato de que seu sucesso ou fracasso dependem de incentivos estatais. A ignorância é um instrumento de dominação de fácil difusão e de eficaz promoção da subjugação voluntária. Muitas vezes está camuflada no interior das políticas de informação dominantes (como jornais, revistas, canais e estações de TV e rádio, programas de entretenimento e internet), nos processos educacionais e em outros instrumentos de formação dos segmentos subordinados de uma sociedade, podendo a ignorância estar presente mesmo entre aqueles que supõem não serem ignorantes. A ignorância enquanto projeto político de dominação pode inclusive se relacionar contraditoriamente com a educação. produzindo confusão e ausência de percepção quanto às fronteiras que separam o que é de fato conhecimento racional e o que é mero senso-comum.

É um erro grotesco e preconceituoso relacionar a ignorância com a cultura popular e o conhecimento popular, pois estes últimos envolvem tradições e formas de compreender o mundo e a realidade que remetem às sabedorias, muitas delas milenares, relacionadas a uma cultura específica no interior de seu próprio desenvolvimento, muitas delas com manipulação, conhecimento empírico e observacional de princípios ativos da natureza, entre outros elementos naturais-cosmológicos identificados.  Dessa forma, é possível encontrar sábios e cultos em diferentes sociedades e temporalidades, observar o desenvolvimento medicinal, matemático, astronômico e outras formas de conhecimento da flora e da fauna, ainda que esses conhecimentos não sejam condizentes e compatíveis com o que se considera sábio e culto para outros povos e sociedades. A ignorância, portanto, não possui relação com a cultura ou conhecimento popular, senão é um dos desdobramentos do que se denomina como senso-comum ou aquilo que o pensamento filosófico grego tanto combatia, a chamada opinião (doxa). O senso-comum representa risco à existência do conhecimento e cultura popular por disseminar visões preconceituosas e equivocadas.

A opinião é um argumento tosco e vulgar, motivado por critérios passionais e desprovida de racionalidade ou capacidade de comprovação lógica ou científica, seja ela observacional, matemática ou experimental. A opinião (doxa) tem a capacidade de persuadir porque ela camufla argumentos sofísticos e retóricos no que parece ser uma lógica sensata, quando na verdade a opinião ocorre a partir da coleta equivocada e sistematização de informações capturadas aleatoriamente da própria realidade. Não é por acaso que muitos pensadores contemporâneos têm relacionado o conceito de doxa com a pós-verdade (berço das fake-news difundidas nas redes sociais). O Dicionário Oxford de Filosofia cunhou com os seguintes termos o conceito de pós-verdade: “Post-truth (pós-verdade): relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. No Brasil vimos o governo Bolsonaro e seus adeptos passionais apresentando o nazismo como sendo de esquerda; a cloroquina e vermicidas como se fossem eficazes para o combate à Covid-19; o terraplanismo; entre outros argumentos cegos difundidos e incorporados por muitos brasileiros. O nome pós-verdade se relaciona ao processo de negação e deslegitimação de consensos e certezas científicas e históricas.

É preciso identificar a tênue distinção entre opinião ou senso-comum (doxa) e ignorância, ainda que compartilhem das mesmas características. A opinião pode ser um exercício desinteressado ou mesmo proclamada voluntariamente numa simples conversa entre dois indivíduos em qualquer esquina. Por ignorância se entende a estratégia política promovida por certos governos que atuam com a intenção de produzir justificativas em torno da naturalização ou normatização de desigualdades e exclusões sociais de segmentos não privilegiados, assim como produzir informações que distorcem consensos históricos e científicos em nome da dominação política e econômica. A ignorância também representa um processo ideológico (portanto, mascaramento da realidade) no qual as dinâmicas concretas que constituem a sociedade são distorcidas por visões de mundo negacionistas e amplamente amparadas em pressupostos religiosos, liberais-econômicos e vulgares do ponto de vista da racionalidade. Como se vê, a ignorância está relacionada à distorção, à criação de falsas visões de mundo ou simulacros que parecem tornar o aparente em realidade, a sombra é tomada como se fosse o objeto real, sendo seu objetivo promover dominação e conformação a partir da criação de falsos argumentos. Em latim, o termo ignorância deriva de ignorar (ignorāre), que significa não saber, não conhecer, desconhecer. Por isso, a ignorância enquanto instrumento de dominação representa o desconhecimento das condições materiais e das contradições reais presentes no interior de uma sociedade. Assim como o conhecimento pode ser aplicado à realidade, o mesmo vale para a ignorância, tornada, portanto, um projeto político que projeta na realidade a tentativa de mascarar e legitimar as desigualdades sociais. Como exemplos: um liberal ao defender o estatuto da propriedade privada como direito natural e ignorar, isto é, fazer vistas grossas à condição de miséria de seus semelhantes; ou quanto ao desemprego que é estrutural e não circunstancial, não é responsabilidade de um indivíduo, senão da manutenção de um exército industrial de reserva responsável também por garantir salários mais baixos. O religioso que proclama em alto e bom som o amor ao próximo, mas defende práticas industriais e capitalistas predatórias e competitivas como se pertencessem à natureza humana. A incapacidade de se perceber que o lucro é oriundo da exploração do trabalho e não da mera compra e venda de mercadorias.

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No Brasil a ignorância é um projeto político que obteve êxito e data do período colonial, quando a metrópole portuguesa deixou a cargo da Igreja o ensino elementar aos indígenas (leia-se dominação) e não incentivou a criação de universidades, editoras e publicações, o que veio a ocorrer apenas a partir de 1808 com a vinda da família real lusitana e a transformação do território num reino unido português. No mesmo ano foram inauguradas as faculdades de medicina de Salvador e do Rio de Janeiro.  Na América espanhola a primeira universidade data do ano de 1538, em San Domingos. Historicamente, a maior parte das estruturas educacionais, nas escolas e faculdades, como a ocupação de cargos aos professores, alunos e burocracia, garantiram certos privilégios econômicos, religiosos, sociais, políticos, raciais e patriarcais (exclusão sistemática da presença feminina) a estratos dominantes em diferentes sociedades e não foi diferente na América Latina. 

No que consideramos hoje como nível básico e atrelada à religião, a educação colonial brasileira serviu como instrumento de aculturação por meio da catequização de indígenas até a expulsão dos jesuítas por Pombal por volta de 1750. Se não eram dizimados ou escravizados pelos colonizadores, os indígenas foram aculturados pela religiosidade europeia. Quanto aos negros escravizados e vindos da África, a intenção dos colonizadores era a de afastá-los total e radicalmente da leitura e escrita, sendo muitas vezes castigados aqueles que não fossem analfabetos. Durante a colonização e até a Proclamação da República, a quantidade de negros com acesso à alfabetização foi pequena, geralmente financiada por alguns poucos proprietários de escravos ou a família real, e à margem dos estratos brancos pertencentes às elites, destacando-se os abolicionistas Luiz Gama (1830-1882), André Rebouças (1838-1898), José do Patrocínio (1853-1905) e o literato Machado de Assis (1839-1908).  

Entre as elites, Sérgio Buarque na obra Raízes do Brasil destaca o caráter bacharelesco, fosse pela maioria esmagadora de proprietários rurais analfabetos, porém com linguajar pomposo e suposta erudição, fosse também quando esses mesmos proprietários financiavam e enviavam seus filhos para estudar na Europa, principalmente em Coimbra. A este respeito, Machado de Assis na célebre obra Memória Póstuma de Brás Cubas ironicamente nos traz um diagnóstico a respeito da relação entre privilégio, educação e ignorância:

“E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades […] Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso […] sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a Universidade pela vida adiante…”

Preocupados com a herança bacharelesca, os latifundiários procuravam garantir o seu domínio político e econômico a partir  de supostos bons modos e saberes que vinham da Europa, a fim de garantir a aparente superior pomposidade de sua família e diferenciá-los de seus escravos e outros proprietários de terra. Na verdade, escancaravam o seu caráter provinciano e utilizavam a educação como instrumento de manutenção de privilégios econômicos e políticos sob a aparência e desleixo de quem apenas compra, mas não incorpora a educação. Desde logo cedo, seus filhos eram educados por governantas europeias destinadas a transmitir com pouco sucesso a etiqueta e os saberes considerados superiores. A alemã Ina Von Binzer é um bom exemplo. A governanta veio ao Brasil a convite de um cafeicultor por volta de 1880 e escreveu um diário que transformou-se no livro e intitulado Meus Romanos (trabalhou na casa de um cafeicultor que batizou todos os seus filhos com nomes de imperadores romanos). O diário está repleto de descrições estarrecidas a respeito do pouco comprometimento, desleixo e preguiça dos filhos dessas elites que a procuraram mais por manutenção de uma fachada que expunha seus privilégios do que para promover o mérito e o conhecimento profundo. Assim a alemã descreve a sua experiência por estas terras:

“[…] O norte-americano observa o trabalho e os trabalhadores; ele mesmo cria e produz à vontade com as mãos; despreza no negro apenas a raça subjugada. O brasileiro, menos escrupuloso, mas por outro lado orgulhoso e, no entanto, novamente mal-educado, despreza diretamente o trabalho e os trabalhadores. Ele mesmo não trabalha, se pode de algum modo evitá-lo, vê o nada-para-fazer como um atributo da livre ignorância [….] 

[…]A lei de emancipação de 28 de setembro de 1871 determina entre outras coisas aos senhores de escravos que mandem ensinar a ler e a escrever a todas essas crianças. Em todo o Império, porém, não existem, talvez nem dez casas onde essa imposição seja atendida. Nas fazendas sua execução é quase impossível […]

[…] Imagine isto: outro dia ao entrar na classe, achei-a muito irrequieta e barulhenta e na minha confusão recorri ao Bormann. Quando obtive silêncio para poder ser ouvida, ordenei: “Levantar, sentar”, cinco vezes seguidas, o que no nosso país nunca deixa de ser considerado vergonhoso para uma classe. Mas aqui […] quando cheguei a fazer-lhes compreender o que delas esperava, as crianças estavam tão longe de imaginar que aquilo representasse um castigo, que julgaram tratar-se de uma boa brincadeira […]”.

Não seria estranho comparar as descrições Ina Von Binzer com o que muitos professores de escolas privadas acabam vivenciando até hoje, em pleno século XXI. Raros são os alunos dedicados. Estes, por sua vez, alcançam postos de trabalho importantes, significativos e merecidos. Porém, a grande maioria frequenta as escolas sem o comprometimento devido. Certamente sequer seriam aprovados em escolas de outros países, mas no Brasil podem manter seu senso-comum e sua progressão nos estudos. As escolas, pressionadas pelo poder econômico dos pais abastados, fazem vistas grossas, aprovando alunos desleixados e pouco comprometidos com entregas de trabalhos. Muitos são aprovados por um cordial conselho escolar em que diretores determinam quem passa ou não de ano, geralmente de acordo com o histórico de pagamento de mensalidades, preferencialmente com anuidade paga à vista. Para os segmentos abastados, a educação básica privada e superior são instrumentos de manutenção de privilégios econômicos e políticos. Isso justifica a preocupação maior das escolas privadas com as metodologias de ensino e não com os conteúdos, o que é o mesmo que desejar escrever sem ter ideia do que exatamente deve ser escrito. 

Longe de estar instaurada a partir do mérito dos estudantes, a educação sustenta um sistema arcaico social, em que diplomas funcionam como títulos de nobreza. Esses títulos não sustentam a formação de qualidade, senão a construção de um teatro de aparências em que o dominador, ignorante, voluntariamente mal formado, inepto no ofício e no intelecto passa a instaurar cargos, setores e organogramas em que ele se apresentava outrora como proprietário ou presidente, hoje como CEO e investidor, quando na verdade outros competentes e estudados indivíduos (geralmente oriundos de classes exploradas) verdadeiramente realizam o trabalho de sucesso. Fingindo que estudaram e acreditando que realmente trabalham, sentem-se no dever de proliferar suas visões de mundo aos seus subordinados e tornam seus privilégios em formas políticas de segregação da própria educação aos mais pobres, limitando o acesso adequado às estruturas públicas educacionais, além de minar a possibilidade de ascensão social dos menos favorecidos por meio da educação, pois estes, caso tivessem as mesmas condições de acesso ao ensino que os mais abastados, certamente tornar-se-iam concorrentes que levariam pânico a uma consciência privilegiada e certa de que sucumbiria diante de indivíduos mais competentes.

A tardia abolição da escravidão em 1888, às vésperas do século XX, não foi seguida por uma política de estado voltada à inclusão econômica e muito menos de alfabetização da população negra. Abandonada ao relento e ao analfabetismo, o direito à educação tornou-se privilégio nas mãos das elites. As escolas públicas até meado da década de 1950 eram consideradas de melhor qualidade do que as escolas privadas. Estas últimas absorviam em muitos casos crianças abastadas pouco afeitas aos estudos. Porém, ambas escolas, a pública e privada, atendiam em quase sua totalidade segmentos brancos da elite brasileira, mantendo para a maioria desses estudantes a mera aparência ilustrada desses segmentos privilegiados. Foi com Anísio Teixeira (1900-1971), entre as décadas de 1920 e 1930, que se propagou a necessidade da reforma do ensino público, devendo ser ele laico, público, integral e universal. Gradualmente a população excluída foi tendo acesso ao ensino básico, porém ainda distante do superior. Na década de 1960 Paulo Freire ganhou destaque ao aplicar sua metodologia de alfabetização, principalmente em adultos, relacionando realidade social, aprendizagem e luta política. Darcy Ribeiro, ministro da Educação de João Goulart, ao fundar o UNB buscou a democratização do ensino superior. Inovou criando ciclos básicos em que alunos de diferentes áreas do conhecimento teriam disciplinas comuns voltadas às humanidades e com o objetivo de humanizar diferentes profissões.

Esses lampejos de democratização do acesso de qualidade ao ensino no Brasil foram barrados com o Golpe militar de 1964. Como resultado, os militares excluíram a filosofia e sociologia como disciplinas, substituindo-as pela disciplina torpe intitulada OSPB (Organização social e política brasileira), restrita ao ensinamento de leis, obediência civil, patriotismo e datas militares tidas como relevantes. Os militares garantiram o precário acesso à educação pública, inspirada no ensino técnico, pouco reflexivo e profundamente positivista. No nível superior, o governo militar promoveu expurgos nas universidades públicas e aposentadoria compulsória de docentes considerados subversivos. Toda uma geração de jovens foi formada naquilo que a Escola de Frankfurt designa como razão instrumental, isto é, um tipo de racionalidade voltada à mera técnica e ao desenvolvimento tecno-científico, sem que isso signifique a preocupação com problemas sociais. A razão instrumental aplicada ao ensino é ignorante, pois se trata de uma estratégia política na qual os aspectos técnicos são supervalorizados enquanto que as desigualdades sociais e efeitos colaterais (como os ambientais) são negligenciados. 

No que diz respeito ao ensino superior público, ele se apresenta como um instrumento que permite oportunidades de mobilidade social e intelectual, mas sua abrangência e qualidade aos mais talentosos na condição de pobres e excluídos sempre foi e continua sendo contrastante com a facilidade na qual os segmentos dominantes conseguiram acesso ao nível superior. No Brasil, o ensino superior além de escasso, historicamente voltou-se ao preenchimento de vagas ocupadas pelas elites econômicas e políticas. Longe de permitir a democratização da sociedade brasileira, o ensino superior tornou-se o local de manutenção de privilégios e não valorização do mérito. Pode-se verificar esse fenômeno com o processo de instrumentalização do ensino superior. Faculdades de medicina, engenharia, direito e administração optam na maior parte de vezes por disciplinas técnicas, pouco reflexivas e sim operacionais. Para os membros das elites mais estudiosos, esses conhecimentos são determinantes para o ingresso nas melhores faculdades, constituindo o paradoxo entre a instrumentalização do conhecimento e a ignorância social. Bem formados em suas técnicas, mantém preconceitos e privilégios que combatem uma visão mais humana em relação aos centenas de miseráveis no país. Na década de 1990, diante das demandas neoliberais por profissionais com trabalho flexível e maior qualificação, as elites angariaram um projeto político educacional ignorante, expandindo universidades privadas de péssima qualidade, as chamadas “unis”, cujo objetivo primeiro representou a necessidade de permitir ao menos abastados o acesso à cultura bacharelesca verificada por diferentes pensadores brasileiros, conforme expusemos acima. Para tanto, o Ministério da Educação criou critérios e instrumentos de avaliação das faculdades privadas que passaram a revelar pouco sobre a sua qualidade intelectual e crítica, e revelam mais sobre os investimentos em estruturas físicas e adequação dos currículos às exigências do mercado. Enfim, a razão instrumental e não o ensino de qualidade foi democratizado. 

Esse ensino instrumental se releva muito eficaz no processo de subordinação das massas ascendentes. Com disciplinas que atendem as demandas do mercado e sendo o mercado pouco reflexivo, voltado apenas às técnicas operacionais e rentáveis, o ensino superior privado tornou-se um receptáculo de absorção de estudantes carentes de conhecimentos básicos técnicos e humanistas, tornando o ensino superior uma espécie de segundo ensino médio, porém apenas voltado à instrumentalização. Tais conhecimentos, mesmos os mais técnicos, deveriam ter sido transmitidos no ensino público básico (sucateado pelas elites). Ainda assim, o ensino técnico é mais privilegiado que o crítico e humanista. Há bolsões de escolas públicas com conhecimento instrumental consideradas de qualidade no Brasil, porém a grande maioria dos jovens pobres tem acesso a uma educação insuficiente, colaborando com o processo de dominação angariado pela ignorância como projeto político de nossas elites. 

O fato é que no ensino superior tais estudantes passam adquirir acesso a conhecimentos mais instrumentais que humanistas. O resultado de todo esse processo é que há um grande contingente de indivíduos portadores de títulos de ensino superior, porém providos de conhecimento instrumental e pouco reflexivo. A Escola Pública, atacada pelos governos militares nas décadas de 1960 a 1980 deixou até hoje duas heranças perversas: a ênfase no ensino instrumental e grande quantidade de formados ignorantes no que diz respeito às causas sociais. Não nos surpreende que Bolsonaro tenha obtido amplo apoio das elites brasileiras e das camadas militares (muitos oriundos dessas mesmas elites) comprometidas com o projeto político de disseminação da ignorância no Brasil e manutenção de seus privilégios. Bolsonaro cortou verbas para pesquisas científicas, procura intervir nas universidades públicas e investir menos na área de humanidades. Projeta a escola sem partido como forma de controle ideológico sobre professores e escolas. Bolsonaro declarou desejar modificar o conteúdo de materiais didáticos distribuídos para as escolas, a fim de estabelecer o negacionismo e visões distorcidas sobre o Golpe de 1964, as relações raciais e de gênero, Ataca e ameaça a política de cotas construídas na universidades públicas durante os governos do PT (2003-2016).